7 de out de 2010

Notas: Figuras da Recusa - Estudo de Casos

Nas últimas cinco aulas do curso Figuras da Recusa, encerrado no dia 02/10/10, foram abordados relatos de Penot, em sua obra homônima ao curso, sobre alguns casos clínicos que figuram a temática. A seguir, um breve resumo dos principais aspectos de alguns deles, ressaltando a importância de certas constatações.

Caso Jeanne

- A maior dificuldade de Jeanne era reconhecer o seu sexo, pois seu pai não conseguia lhe transmitir um representante paterno suficientemente coerente.
- A recusa é um não admitir, uma "inadmissão".
- Quando há estranheza é muito possível que haja a recusa.
- No caso de Jeanne, quando há problemática com seu pai, há problemática com a língua materna dele.
- Formou o ideal de ser loira e não possuir pêlos púbicos.
- A análise não pode ter um ideal.
- A queixa da histeria se refere à insatisfação com o pai.
- Freud confunde* ideal do ego com superego:
*O ego ideal é imaginário, já o ideal do ego projeta o sujeito para o futuro, sendo simbólico, fundamental na análise. Suscita o conflito de identidade "o que você quer ser?". A carência paterna causa grandes problemas em sua construção. Enquanto que o primeiro superego, provido pelas relações iniciais do casal parental, propicia a recusa, remetendo à realidade.

Caso Martin

- Limítrofe
- Pôde construir um mito individual, após a confissão da mãe, fundamental para a construção de um narcisismo saudável.
- A mãe é intérprete, tradutora do desejo paterno.
- A mãe deve pensar sua própria falta (desejar o pai, pois o filho não é suficiente).
- Em Hamlet (cena 4, ato 4), "O que é isto? Um rato?" elegida por Penot como a cena mais trágica da peça (com a morte de Polônio), Hamlet demonstra uma depreciação inconsciente da figura paterna.
- Se o desejo do pai não for reconhecido retornará como estranheza (figura estranha ou maléfica).
- Psicanalistas erram muito ao enfatizar a função maternante da mãe (princípio do prazer), mais importante é a função de intérprete (princípio do desprazer).
- A mãe não pode estar todo tempo à disposição do filho.
- "Não poderia ser traumático para uma criança o que é psiquicamente traumático para mãe." Penot
- Só existe Psicanálise quando o psicanalista se torna herdeiro da função de intérprete desse desejo.

Caso Paul
- O que é um delírio?
O sujeito vive para o delírio. Paul sofria de uma produção imaginária incoercível, onde julgava ser Ivan Rebrov, que era um cantor popular de canções russas do início do séx. XX, entre elas, Les yeux noires (os olhos negros).

- Quando surge o delírio?
Havia uma espécie de condensação imaginária. Ele se confunde com continente e conteúdo. A precipitação de uma condição alienada, onipotente, relativamente rara em uma criança de sete anos. 

- Por que se deve restringir o delírio? 
O delírio preenche uma falha, supre e reconstitui algo que o sujeito não pôde adicionar a sua história. Repousa na ideia de que o delírio tem função de suprir um problema interno do sujeito, mas o domina e o impede de aprender, realizar outras coisas.

- Por que Paul delira?
Para entender o delírio, recolhe-se informações na família. Paul tenta com o delírio, resgatar um passado que a família condena  e recusa. O delírio de Paul é a denúncia da própria recusa.

- Como se trata um psicótico?
É errado tratá-lo como se fosse este um neurótico. É preciso demonstrar a falha preenchida pelo delírio. Para tal, delírio não é fantasia. Ele se vê forçado a delirar. O delírio não faz sentido. Ele vem no lugar da falha simbólica que tem o sentido já ausente. Na psicose há uma trava. O objetivo do tratamento é recuperar a dimensão simbólica. Ex-existir é situar-se fora da relação com o outro.